Reabilitação Neuropsicológica na Psiquiatria: saiba mais sobre o modelo que mudou a história da reabilitação

Reabilitação Neuropsicológica na Psiquiatria: saiba mais sobre o modelo que mudou a história da reabilitação

Nós já falamos aqui no nosso blog sobre a Reabilitação Neuropsicológica, sobre a Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF) e seus Core Sets, bem como sobre o BRAIN, mas tem um ponto em comum entre esses assuntos que merece um destaque especial: o Modelo Abrangente de Reabilitação Neuropsicológica na Psiquiatria.

Criado pelas doutoras Fabricia Loschiavo e Barbara Wilson, referências internacionais no campo da Reabilitação Neuropsicológica, ele foi o primeiro do seu tipo no mundo, trazendo uma maneira inovadora de interpretação da CIF e seus Core Sets para os reabilitadores que atuam junto a pacientes com transtornos psiquiátricos.

Esse Modelo Abrangente de Reabilitação Neuropsicológica na Psiquiatria é a base do BRAIN, que está chegando como uma plataforma digital inovadora, criada a partir da sistematização dos parâmetros do modelo.

Afinal, como surgiu esse modelo pioneiro que agregou tanto para a Reabilitação Neuropsicológica?

Ninguém melhor do que a própria criadora para responder! Por isso, a seguir, confira uma entrevista esclarecedora.

COM A PALAVRA, FABRICIA LOSCHIAVO

Como surgiu a ideia do modelo abrangente? Qual foi o objetivo ao criá-lo?

A ideia do modelo abrangente para ancorar todo o embasamento da Reabilitação Neuropsicológica na Psiquiatria veio com o propósito de fazer a interface entre a teoria e a clínica, a mão na massa, o cotidiano real do profissional que trabalha com a reabilitação, com as demandas dos pacientes e com os distintos diagnósticos psiquiátricos.

Entendemos o modelo como uma representação, talvez até pictórica, mas muito mais pragmática, que nos auxilia na explicação e na compreensão de fenômenos específicos. Eles variam desde analogias mais simples, como por exemplo a comparação do armazenamento da memória com o armazenamento de livros em uma biblioteca, conforme Baddeley nos trouxe em 1992, até sistemas mais complexos.

Com uma modelagem conexionista, que nos ajuda, por exemplo, a explicar como um sistema, após uma lesão, consegue se readaptar para aprendizado de novas habilidades, pensando no funcionamento do sistema nervoso central.

Especialmente na reabilitação, os modelos nos são úteis porque, a partir deles, nós conseguimos conceituar processos, entender quem está dentro da proposta da reabilitação, pensar sobre a intervenção e explicar todas essas relações para os pacientes e para as famílias.

A proposta do modelo é que ele, por si só, já seja um processo psicoeducativo. A partir dele, nós já conseguimos explicar para os pacientes o que faremos, quais são as características, as informações relevantes para que comecemos a montar o quebra-cabeça da reabilitação. Então, a proposta do modelo abrangente na Psiquiatria veio dentro de toda essa abordagem.

Qual é o embasamento científico por trás do modelo abrangente?

O processo magno foi todo o construto desenvolvido pela Bárbara Wilson e o modelo de reabilitação publicado por ela em 2002, que era completamente voltado para a clínica de pessoas com lesões encefálicas adquiridas.

O meu caminho, Fabricia Loschiavo, como autora e propositora de todo esse novo arcabouço teórico na área da Psiquiatria, foi voltar lá, bebendo da fonte que ela nos ofereceu e pensar, a partir dali, como nós poderíamos aplicar tudo isso na psiquiatria.

Foi em uma conversa com ela, dentro dos meus últimos dias no doutorado em Neurociências que fiz na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, que ela me falou que o título do seu artigo era “em direção a”, “rumo a” e que, finalmente, havia chegado alguém com a proposta de ampliá-lo para uma população clínica com outras demandas, mas mantendo grande parte daquele alicerce que foi estruturado por ela.

Então, foi assim que veio a proposta da criação do modelo e, sem dúvida alguma, o grande embasamento científico é justamente esse processo, essa conexão entre o indivíduo, os seus contextos de desempenho, a família, as demandas, as dificuldades no dia a dia, a compreensão das funções cognitivas à luz da funcionalidade que nos traz a Classificação Internacional de Funcionalidade.

Um importante marco nesse processo é entender toda essa conexão, essa interdependência dos fatores relacionados ao sucesso da intervenção terapêutica, por exemplo, de uma pessoa que apresente algum transtorno psiquiátrico e que necessite da Reabilitação Neuropsicológica.

Na verdade, este é um trabalho contínuo.

Primeiro foi toda a teoria por trás, depois veio o modelo, na sequência veio a proposta do fluxograma, assim como veio a proposta do ciclo de formulação clínica para intervenção e reabilitação neuropsicológica com todas as suas seis etapas.

Por fim, foi da congruência entre a teoria e a clínica da intervenção que veio o fluxograma, unindo a formulação clínica com todas as seis etapas descritas lá atrás, considerando os quatro âmbitos do modelo abrangente, as considerações do indivíduo, do diagnóstico, teóricas e as considerações da família, contextos e sistemas nos quais os pacientes estão inseridos, justamente trazendo isso de uma forma muito prática e objetiva.

Como surgiu a ideia de transformá-lo no BRAIN?

Eu penso no modelo, na formulação clínica e nesse fluxograma como etapas de um funil e o resultado de todo esse processo foi o BRAIN.

O BRAIN nada mais é do que o cérebro da reabilitação. Foi com o objetivo maior de dar o passo a passo para o clínico da área que eu o desenvolvi. É uma ferramenta, obviamente, tecnológica, mas simples, objetiva, que representa, que personifica, que traz de uma forma concreta essa tradução da teoria em clínica.

O que você deseja entregar para os reabilitadores com o Brain? Como ele os auxiliará?

O objetivo maior é trazer para o clínico da área um processo fluido de intervenção. É fazer com que, naquele momento, naquele software, tudo esteja compilado de uma forma hierarquicamente organizada, fazendo as conexões com todo o arcabouço teórico desde o modelo até o fluxograma clínico, considerando todas as estratégias que nós usamos para intervenção.

Então ele entrega a chave de ouro que vai abrir a porta da intervenção clínica para qualquer paciente que apresente qualquer demanda funcional, ou tendo por base as lesões encefálicas adquiridas, ou os transtornos psiquiátricos.

Mas o objetivo é destravar esse processo, tornar a reabilitação uma prática simples, objetiva, onde você, o profissional da área, vai ser guiado passo a passo.

Eu acho que, sem dúvida alguma, é o maior tesouro.

E é até interessante que, quando lá atrás, bem antes até do meu doutorado — estou falando de 2010, 2011 — eu comecei a delinear a prática da reabilitação na psiquiatria, o meu objetivo não era trazer o BRAIN. O BRAIN foi uma consequência muito feliz de todo esse processo de desenvolvimento teórico e prático.

Então temos os primeiros artigos publicados, depois vieram os livros que trouxeram essa maior robustez à área, abrindo um campo objetivo aqui no Brasil — que já existia desde o final do século passado, quando houve essa mudança de chave da área de intervenção da reabilitação da lesão encefálica para a psiquiatria, considerando a gigante prevalência dos transtornos psiquiátricos nos últimos tempos, principalmente pós-pandemia.

Então, foi um processo muito fluido.

Então o BRAIN nunca foi um objetivo?

O objetivo não foi ter o BRAIN lá atrás, mas ele acabou sendo um fruto muito feliz de um processo muito profícuo, de um processo muito rentável do ponto de vista de publicação, de ciência.

Assim, ele aconteceu como uma resultante de uma construção científica muito robusta na área.

Além disso, quando os profissionais vinham até mim me perguntando como eu faço a reabilitação, eu sempre quis ajudar.

O meu objetivo sempre foi fazer algo para as pessoas que de fato praticam a reabilitação, que intervêm na área, considerando seus diferentes backgrounds. Não me interessa se médico, se psicólogo, se terapeuta ocupacional, assistente social, professor, enfim.

É como a Bárbara diz: “Eu criei uma teoria, eu construí uma ciência para quem fosse capaz de aplicá-las. Não me interessa a profissão de base.”

O que me interessa é que a pessoa realmente domine, que conheça, apodere-se deste conhecimento e o use principalmente a favor do maior beneficiário de tudo, que é o nosso paciente.

Então, eu espero que o Brain seja justamente essa chave mestra que consiga destravar todas as portas e que consiga capacitar o profissional para que ele consiga colocar realmente em prática essa ciência de uma forma simples, fluida, aplicada, cotidiana e objetiva.

Nada como o depoimento de quem entende, não é verdade?

O BRAIN

O BRAIN é sim uma grande e moderna novidade, mas ele também é o resultado de mais de 20 anos de dedicação incansável ao estudo, à prática, à observação e ao desenvolvimento das melhores técnicas de reabilitação internacionalmente reconhecidas.

A sistematização de todo esse arcabouço científico do Modelo Abrangente de Reabilitação Neuropsicológica na Psiquiatria (você confere o modelo aqui) é aliada ao suporte fantástico da Inteligência Artificial para que o BRAIN trabalhe com o reabilitador em seu exercício profissional.

O objetivo do BRAIN é proporcionar análises, insights e recomendações baseadas em evidências para guiar a formulação clínica e as estratégias de intervenção, reduzindo os processos manuais e repetitivos da Reabilitação Neuropsicológica e otimizando as combinações dos Core Sets.

Ele é um recurso que permite ao reabilitador usar o seu conhecimento para aprimorar a reabilitação de forma mais estratégica e humanizada, sempre em busca de uma maior funcionalidade para os melhores resultados personalizados de cada paciente.

Venha conhecer o BRAIN! Ele vai transformar a sua prática clínica.

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